Praia no Rio? Que praia?
Fui passar alguns dias no Rio de Janeiro para aproveitar coisas ótimas que a cidade oferece, exceto as praias – que, vamos convir, são todas meio iguais: mar lindo e agitado e uma vista com morros, eventualmente tomados por favelas. Me interessava pesquisar a vida fora da areia, maneira pela qual cheguei a quatro vibes muito características do Rio (fin-de-siècle, anos 20-30, anos 50-60, anos 00), todas com atrações bacanas, pra você ficar bem longe de quem quer se bronzear comendo biscoito globo.
. Fin-de-siècle: sabe a virada do século XIX pro XX, naquele espírito família real e decoração carregada? Os cariocas adoram e mostram as razões pelas quais já foram a cidade mais importante do país. Aqui entram a Confeitaria Colombo do Centro (a do Forte de Cocapabana é um truque pra captar turistas), que nem tem doces tão bons assim, mas vale pelos lustres absurdos, espelhos e elevadores de época; o Paço Imperial (tipo a Pinacoteca de São Paulo), que exibia uma ótima exposição sobre o Roberto Burle Marx, incluindo os estudos feitos à mão da calçada de Copacabana e do Aterro do Flamengo projetados por ele, além de tapeçarias, gravuras e pinturas; e o Palácio do Catete, com os jardins grandes e toda a exuberância (monótona) de museus que contam histórias de governantes.
. Anos 20-30: é muito legal pegar o bondinho na Lapa e subir o morro até Santa Teresa, ambos bairros hypados pelo Noel Rosa e a galera do samba. Santa Teresa enfileira casarões caindo aos pedaços, não tem sinal de celular nem caixa eletrônico, mas seus largos, restaurantes e lojas de artesanato fino compensam muito o trabalho de chegar até lá. Aqui, o samba antigo e os “malandros” são originais. Desça também de bondinho e ande pelos arredores pra ver a arquitetura bizarra e encantadora dos prédios da Petrobrás e da Catedral Metropolitana.
. Anos 50-60: a letra de Lígia, do Tom Jobim, resume tudo. A bossa nova hypou Ipanema, Leblon e Copacabana, antes do Rio praticamente estacionar nos anos 70 e se alimentar de saudosismo, até hoje. Quer algo mais a cara do Rio do que uma foto amarelada tirada na praia de Copacabana? Vale cada centavo da revelação do filme. Seguindo na onda o barquinho vai, a tardinha cai, destaco o suco de cupuaçu vendido nas várias lojas de frutas da rua Visconde do Pirajá, em Ipanema; e as confeitarias Garcia & Rodrigues e Talho Capixaba, ambas na Ataulfo de Paiva, no Leblon, que servem sanduíches perfeitos, feitos com os melhores ingredientes. Não é difícil comer bem no Rio – muito pelo contrário, é uma nova possibilidade de sabor em cada esquina.
. Anos 00: são os poucos pontos superconectados da cidade, livres do ranço praia/samba e que poderiam estar em qualquer metrópole. Aqui incluo o único local em que fui bem atendido, o ótimo restaurante Zuka, no Leblon. De entrada você pede a experiência de foie gras; como prato principal, o filé negro com purê de pequi; e, para a sobremesa, o brownie de pistache com calda de frutas vermelhas. Falar em 00, o famoso 00, no Planetário da Gávea, também tem um restaurante com cardápio delicioso, junto com uma pista e um deck com bar ao ar livre – tem algo em São Paulo assim, que junte bar/restaurante/pista e dê super certo? Ah! E o Dama de Ferro, que todos conhecem, é a balada em que vi mais gente animada dançando bom som eletrônico no meio de uma estrutura fria de aço, vidro e luz vermelha – inferninho chique.
Tem pra vários gostos e bolsos, e é super prazeroso andar pelas ruas super arborizadas, se sentindo sempre num cartão postal. Mas esteja preparado para o serviço precário, uma constante nos estabelecimentos do Rio: você tem que reforçar seu pedido em média três vezes, e ter muita paciência. Apesar de ser uma cidade turística, a comida demora pra vir, os garçons são atrapalhados e a conta sempre traz itens a mais. Nessas horas, nem a certeza de ter sempre uma vista linda de mares e morros é consoladora.
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É… definitivamente temos 2 Rios diferentes aqui “/
Na próxima vez você precisa conhecer o Rio o outro lado do túnel…