Ecofriendly, Ecofail
Nunca me considerei exatamente uma ameaça ao meio ambiente. Ah, separo minhas latinhas das outras coisas, não jogo lixo na praia, e fico comovida de verdade olhando ursinhos polares bebês no Discovery agonizando porque a casinha deles está derretendo e tal. A consciência começou a apertar mais ultimamente. Iniciou-se a saga em um churrasco que organizei outro dia, no qual participarem um casal de homo sapiens ambientalicius (aquelas colegas que tem casa ecológica com energia solar e tudo mais) – que apontaram, desapontados, minha incauta escolha de talheres, copos e pratos: descartáveis.
Como tais convidados não eram exatamente íntimos, achei de bom tom não sugerir que eles limpassem os práticos utensílios e cinzeiros com a língua, fazendo o favor. Superior, iniciei uma ardente discussão sobre as dificuldades de ser ecofriendly na “vida real”. Essas nossas, moradores da cidade grande, cujo edifício não tem coleta seletiva, a máquina de café do escritório já sai com copinho e que não são legítimos proprietários de 50 conjuntos de pratos e talheres à disposição nos seus churrascos.
Comentaram-nos tais elucidados, que todos nós temos a responsabilidade por mudar as pequenas decisões do dia-a-dia e consumir de forma consciente, que o fardo da saúde do planeta está nas nossas costas. Ou seja, me chamaram basicamente de assassina de ursos polares bebês. Culpada, resolvi assumir um desafio: tentar por 7 dias uma vida Ecofriendly e relatar para eles minhas descobertas e incautos.
[Gostei do meu momento Globo Repórter. Posso até ver a chamada “E a seguir, a saga de uma garota normal da cidade de São Paulo. Quais as dificuldades atuais da vida ecologicamente correta? Como mudar seus hábitos em poucos dias? Veja após os comerciais”. ]
Compartilho com vocês também.
1º dia – Segunda-feira- 28/09
Um ser superior
Acordei empolgada com a idéia, que nem primeiro dia de regime que você come alface no café da manhã. Guardei a chave do carro. Que ônibus que nada, caminhada! Super ecológico. Foi divertido caminhar ao lado do parque Ibirapuera, nem tanto engolir fumaça na São Gabriel, mas o planeta merece. Logo descobri que demoro tanto chegando a pé quanto de carro, vejam só. Menos gasolina E calorias.
No escritório, minha primeira dose de café – achei uma caneca feia de empresa de seguros no armário. A descoberta de como tirar café da máquina, sem cair o copinho, deveria me dar direito a um diploma de engenharia (ei, eu não consigo instalar um DVD, mereço o mérito).
Passei o dia sem imprimir uma folha sequer. O relatório de 100 páginas revisei na tela mesmo. Demorou umas 2 horas a mais (damn emails, facebook e MSN), mas saiu. Em algum lugar do mundo, uma árvore sorriu.
Supermercado à noite. Desfilando com minha linda ecobag preta, de mais de um ano de idade e segundo dia de uso, olhei com ar superior para todos demais clientes consumidores de malignas sacolas de plástico.
Verduras orgânicas e xampu ecológico, que não é testado em animais. Na área de frios, solicitei para tirar a bandejinha de isopor. O moço me olhou com cara de cuméquié. Expliquei, pacientemente: - Veja bem, Sr. seu Zé, que isopor na natureza demora mais de 930 anos para se deteriorar, por isso é melhor não utilizarmos sempre que for possível. [Não, eu não sei quantos anos se deterioram isopores, mas achei um bom chute e o Sr. Seu Zé também achou, pareceu.] Coloquei o queijo e peito de peru bamboleando dentro do carrinho.
Dúvida surgiu na garrafa de água: PET deve estar errado. Acho até descobrir o que fazer, vou ter que tomar água ligeiramente amarelada da torneira de casa.
Nota mental ao chegar em casa: comprar uma ecobag cuja alça não estoure nas duas quadras caminhando de volta. Graças a deus, todos meus produtos amigos-de-bichinhos continuam intactos.
2º dia – Terça-feira – 29/09
Ecofail
Acordou chovendo. Juro que pensei em ir para Congonhas a pé. Observem que, apesar de eu estar colaborando com o meio ambiente, ele não está colaborando comigo. Fui de táxi.
E avião para o Rio.
Resultado: Sentimento de culpa equivalente a big mac, milk shake e bolo prestígio no segundo dia de regime.
3º dia – Quarta-feira – 30/09
Reenergizando
Sem desanimar, acordei com a brilhante idéia de neutralizar minhas emissões de carbono. Fui pesquisar e calculei quanto custou ao planeta minha viagem ontem. Com uma árvore apenas consigo neutralizar não só minhas emissões, como mais 80 passageiros!
Vim de carro (coloquei na conta da árvore). Como um sinal divino, ali na R. Veneza do Jardim Europa. um caminhão de árvores com placa “Jabuticabeiras Produzindo”. R$ 25,00.
Sabe aqueles raciocínios que você pensa pela metade? Assim foi a compra da jabuticabeira produzindo. Pobre jabuticabeira, produzindo no meu porta-mala.
Alguma idéia onde enfiar uma jabuticabeira produzindo em SP?
(Obs 1: Algo me diz que perguntar na internet onde enfiar uma muda não gerará boas recomendações.
Obs 2: Continuarei oportunamente o relato da semana, incluindo o ainda incerto destino da muda de jabuticabeira produzindo. [Propaganda para você não trocar de canal. Quer mais Globo Repórter que isso?])
Tags: comportamento, ecofriendly, ecologia, reciclagem
















estou esperando pelos outros dias… e que você tenha mais sucesso neles (a chuva continua)
Van,
Eu sou muito legal, e muito amigo do meio ambiente (tanto que tenho uma ecobag no carro e uso TODAS as vezes que vou no super há 3 anos) e tenho um lugar para a tua jaboticabeiraproduzindo. Traz aqui no escritório que tem uma área grande de nada-natural, e tem espaço para ela.
Boa sorte até o fim da semana.
To morrendo de rir! Eu sei que o assunto é sério, mas esse relato é muito real. Várias vezes já me peguei pensando o que podia fazer pra ajudar o planeta, mas ou eu faço isso o dia inteiro ou eu trabalho e vivo… Enfim, vou continuar acompanhando, quem sabe você me ajuda a encontrar a solução?
Ah, e cuide bem da jabuticabeira, é minha fruta predileta. Será que uma pessoa não pode simplesmente plantar uma muda em um parque muunicipal ou algo do tipo?
Que ótima idéia Van! Bem-dito seja o casal que te inspirou.
Descobrir o possível e o ideal (mas não aplicável – ainda) vai abrindo caminho para as mudanças.
Desejo boa sorte a jabuticabeira. Que bom já ter aparecido um lugar para ela.
Ana,
Não pode ir num parque e plantar uma árvore.
Isto porque o parque tem seu planejamento e uma árvore depois, que cresce, pode trazer problemas se não estiver no lugar certo.
Pode conversar com a administração do parque e pedir autorização. Os administradores aqui em SP, atualmente, são pessoas bem engajadas na maioria.
Não sei quem vai plantar a jabuticabeira, mas aqui vão algumas dicas:
Na hora de plantar, cuidado para não cobrir a parte do tronco junto da terra (chamado de ‘colo’). Isto mata a muda.
Lembrar de escolher o lugar de sombra ou sol, certo para a espécie, pensar se há espaço para a árvore adulta onde ela está sendo colocada (transplantá-la mais tarde pode fazê-la sofrer ou até morrer) e regar a muda sempre que necessário.
Rindo muito …
Mas olha só … vou colaborar com sua semana.
Tenho varias ecobags aqui … cada vez que viajo trago uma … e quero dar uma delas pra vc!
Assim contribuo com sua eco experiencia! rs..
Opa… ganhei uma ecobag e uma casa para JaJa, a Jaboticabeira produzindo.
Obrigada amigolhes.
Olá Van,
achei o texto muito bacana! Estou com sorriso no rosto até agora…
Cheguei aqui pelo RT do @CSBsB e edito o blog O Aventureiro. Muitas vezes publicamos matérias sobre sustentabilidade e sobre relatos pessoais de algumas aventuras. Esse seu post, até agora, tá me parecendo uma mistura muito boa das duas coisas.
Será que podemos re-publicar no blog? Que acha?
Entra lá pra ver se topa: http://www.aventureiro.blog.br
Muito engraçado, prova de que até relatos podem ser divertidos, depende da maneira como são contados. Estou ansioso pelos próximos relatos. Estou quase me inspirando a manter un ecodias também.
e já deve ter mais um dia novo aí pra contar
Anita: quero uma ecobag tambem!!! E o café…
Bem, é muito interessante e importante que falemos desse assunto, porém me deixa muito triste a maneira como é abordado…
Essa maneira de falar cheia de ironia é que afasta as pessoas do tema. Você passa a idéia de que ser ecologico é engraçado, cansativo e apenas pessoa anormais( como o casal lambedor de cinzeiros) podem seguir tais habitos. A alienação é um perigo…
Porque apenas a nossa espécie não consegue viver em harmonia com o meio-ambiente ? Vanvan (autora do post eu acho), não se preocupe, o dia possui 24 h e são apenas alguns minutos desse dia que seria interessante ser ecológico(odeio esse termo, já está “marginalizado” pelos ignorantes), é algo simples e sem esforço…Reconheço que as pessoas mais ligadas e praticantes de uma vida mais harmoniosa com o meio ambiente costumam ser um pouco ofensivas a quem não é assim, isso tambem causa o afastamento de muita gente do tema, é algo que eu reprovo.
Bem, outra hora eu faço um post a respeito disso, sua iniciativa é interesasnte Vanvan, eu só espero que um dia ( ou não) você compreenda que ser ecológico não é nada de mais, assim vc não vai precisar fazer nenhum “sacrifício” por 7 dias…
Paulo: você esqueceu de terminar o comment com “sua assassina de ursos polares bebês”.
(Como afirmei, pessoas ecofriendly tem o incrível poder de fazer você se sentir mal mesmo quando você está tentando fazer algo bacana.)
Vanessa, a ignorante “marginalizando” o termo.
Bom o texto van! eu vi essa página faz um tempo, ela fala de 50 pequenas coisas que a gente pode fazer para ajudar o planeta, dá uma olhada: http://www.50waystohelp.com/
beijo
[...] pelo blog da Lalai, cheguei ao post da Vanessa, que é membro do CouchSurfing (assim como eu). Além das pequenas coincidências, achei o texto um [...]
Ei Vanessa,
cadê a continuação do relato?!?! Tô curioso até agora…
Já foi publicado?
Bem, viu que já publicamos a primeira parte no Blog O Aventureiro? Veja aí o trackback ou acesse o site.
Ahh, já mandei email pra você, para que vc me mande o restante do relato, viu?
Estamos aguardando!
Não terá continuação do texto?