A primeira vez que resolvi fazer terapia foi por causa da minha mãe, com quem eu passei a adolescência inteira me estapeando. Eu não era fácil, ela menos ainda. Na terapia eu chorava sempre que ela virava o assunto, já que depois que comecei, descobri tanta coisa pra resolver, que ela já não era mais a questão central. Foi assim, vivemos entre tapas e beijos, com ela sempre dando um jeito de me criticar. Por outro lado, às vezes ela deixava sua docilidade transparecer a ponto de eu me derreter e agradecer pela mãe incrível que tenho.
Eu sempre fui gastona. Nunca poupei, sempre comprei tudo que queria e não queria, apenas pela ansiedade de gastar, o que tinha e o que não tinha. Chegava em casa acabada, com uma sacola a tiracolo, já arrependida pelo aparente desperdício. Enquanto eu lamuriava, ela apenas respondia “prazer não tem preço, já gastou mesmo, então não sofre e aproveite”.
Cresci, fiquei independente e fui morar sozinha, voltei, saí de novo. Foram altos e baixo, até a idade chegar mais para os dois lados e a gente, finalmente, começar a se entender.
Hoje ela está um pouco fragilizada e a pessoa mais fácil de se levar. Seu corpo já não responde como gostaria, a energia parece ter esgotado, mas ela se mantém ali, firme e fingindo que não é com ela. Suas pernas vivem traindo sua vontade, ela cai pra cá, tropeça ali. Estamos sempre à volta com a certeza de que ela está bem. São apenas as pernas, porque o resto está tudo bem mesmo.
Quando eu cambaleio à toa, bate aquele medinho de ser um problema genético, que me deixará assim, um pouco dependente das pessoas para poder estar em pé. Ela não liga, critica nossas preocupações, diz que pode se virar, sai andando sozinha, faz a gente acreditar que se preocupa demais (e talvez a gente se preocupe demais mesmo). Eu me preocupo, não só com ela, mas com meu pai, que acabou largando seus vôos sempre tão ousados, apenas para cuidar dela.

Eu, que estou sempre ocupada e preocupada com meus problemas, dou menos atenção do que gostaria (puro egoísmo na minha análise mais racional). Aí vem aquelas saudades de quando eu deitava no colo dela pra ver novela e ainda ganhava uns trocados pra gastar na cantina da escola no dia seguinte. Quando a vida ainda era sem preocupação, sabe?
Eu sempre fui muito família. Tenho uma conexão incrível com meus pais. Agradeço sempre pela minha família e pela criação que tive. O meu lado ousado, aventureiro, amigo, curioso vem deles. Meus pais sempre me fizeram acreditar que problemas são oportunidades para desafios, sempre me ensinaram que a vida deve ser vivida com leveza, que eu devo correr atrás do que eu acredito, independentemente se ninguém acredita em mim. Deram-me a liberdade que qualquer pessoa sempre almejou, nunca criticou meus namorados, mesmo quando eu os trocava a cada 3 meses; nunca fez qualquer comentário negativo sobre minhas escolhas.

tal mãe, tal filha
Pela primeira vez em muito tempo eu resolvi que é tempo de compartilhar meu tempo com eles. Sempre bate uma culpa antecipada de não poder estar com eles, de não ir visita-los porque estou cansada, de não compartilhar os momentos que eles estão na minha casa porque estou trabalhando. Por isso pra mim foi incrível passar 3 dias coladinha nos 2 pra cima e pra baixo mostrando meus cantos favoritos do Rio de Janeiro. Não só eu, mas o Ola que foi o namorado mais incrível e paciente do planeta, acompanhando cada passo, dando a maior atenção, fazendo piadas, tirando fotos, contando histórias.
Há tempos eu não tinha um dia das mães tão feliz. Fez eu ver tantas coisas, principalmente sobre o que sou, o que quero, o que busco, o que acredito…
Feliz dia das mães dona Maria, a mãe mais incrível que eu poderia ter!!! <3 e feliz dia para todas as mães pacientes e incríveis com a minha.