Archive for the ‘arquitetura’ Category

Paranoid House

sábado, março 15th, 2008

Trabalhar com arquitetura é uma experiência quase sociológica, principalmente quando o objeto de projeto é a casa do cliente. A arquitetura institucional, comercial, industrial, ou qualquer outra, lida acima de tudo com o atendimento e a organização de espaços eficientes para cada atividade. Eficientes no sentido prático, estético, sinestésico e ergonométrico. A arquitetura residencial avança sobre um campo bem mais nebuloso e muito menos científico que é o do sonho. Quando alguém coloca a mão no bolso para construir e/ou decorar o espaço que vai chamar de ‘lar’, ela inclui neste investimento uma série de expectativas indizíveis que cabe ao arquiteto decifrar.

A casa é onde nos protegemos e nos abrigamos. Onde comemos, dormimos, descansamos. Todas as atividades mais básicas acontecem lá. Mas a casa funciona também como o símbolo máximo de quem somos, ou quem queremos ser. A partir dela organizamos todo o nosso cotidiano, nossas investidas na cidade, nossos horários, nosso hábitos. Lá guardamos o que gostamos, recebemos quem gostamos, contamos a nós mesmos nossos mais obscuros segredos. Alguns usam a casa para trazer o mundo para perto, outros a usam para excluírem-se dele. E ninguém está a salvo da saudade de casa.

Eu categorizo três tipos de casa: a casa-abrigo, a casa-palco e a casa-lar.

A casa-abrigo em geral mostra desleixo por todos os cantos. Móveis velhos e malcuidados (quando os hão), paredes nuas, falta de qualquer senso estético e desconhecimento completo da palavra conforto. Nesse tipo de casa o destaque certo é a TV, pois quem mora assim apenas dorme e toma banho lá. O tempo livre indoors é preenchido com a preguiça mórbida da televisão.

A casa-palco é o oposto. Vestida com a metidez de tudo que está em voga agora, ou o que já foi moda láaaaaa atrás, e hoje de apoia na muleta do ‘clássico’, essa casa tem um apuramento de detalhes assombroso. Seja nas alvíssimas superfícies minimalistas, ou nos maneirismos das coleções de bibelôs em cristaleiras de jacarandá, tudo tem seu lugar, perfeitamente espanado, e o visitante se sente automáticamente um intruso. É neste ligar que sentamos com a postura ereta na ponta do sofá, e sempre tem um chá com biscoitos a nossa espera (alguém pensou em Desperate Housewives?).

A última, a casa-lar, é aquela que combina o sofá italiano com a mancha de vinho do último aniversário. O quadro da Beatriz Milhazes está na mesma parede que a foto da primeira comunhão. O piso de mármore reflete as cortinas bordadas que a avó fez. A palavra de ordem aqui é conforto, e quem chega pela primeira vez já pode se jogar no sofá e tirar os sapatos. Aqui perigamos cair na maior cafonália possível, ou beirar o esnobismo das revistas de decoração, mas sempre haverá aquela coleção de bugigangas divertidas ou a marca de pé do filho na parede para contar um pouco a história do dono e nos deixar mais íntimo daquele espaço.

Toda essa dissertação surgiu porque ando reparando que atualmente as pessoas andam com um referencial deturpado das categorias acima. Muitas delas chegam pedindo uma casa-lar, mas na hora do vamos ver elas querem a casa-palco. Muito branco, muito bege, nada de bolhas nas paredes, por menor que sejam. Grandes estresses na hora da entrega da obra, brigas homéricas sobre o risco da maçaneta da lavanderia, lágrimas molhando o lascado da madeira. Essas pessoas se tornam muito infelizes com os pequenos detalhes, e deixam de ser felizes no contexto global, que é a premissa da última categoria.

Daí entra o papel do arquiteto-psicólogo, que tem que lidar com todas as inseguranças e as frustrações que as pessoas trazem do mundo para dentro de seus lares, e ali as querem compensar. Talvez hoje a arquitetura deva ser feita com receita médica, e eu que estou atrasado (ou careta) demais. Sou do tempo que lar se construía com história, não com Botox nas paredes. Também sou do tempo que em TOC era coisa de hospício, e não manchete da capa da Vogue.

Salve-se quem tiver uma Mercedes!

terça-feira, março 4th, 2008

A revista Casa Vogue pode ser considerada talvez não tão felizmente assim, a melhor publicação mensal atual de arquitetura de interiores do Brasil. Afinal de contas, o mercado editorial do setor se tornou um monstro caquético que junta auto-ajuda-da-decoração com desfiles de projetos ‘jabazentos’ completamente insípidos e deslumbrados com o Alucobond e o vidro (‘ainda esse assunto?’ diria João Perassolo). A Casa Vogue talvez seja a única que busca projetos com alguma personalidade no país, apesar de muitas vezes se entregar a modismos auto-inflingidos e babação de ovo para os bambambãs. Pode ser que a culpa seja da arquitetura brasileira em geral, mas isso não vem ao caso.

Todos os anos, a Casa Vogue lança duas edições especiais, uma em janeiro com o ‘melhor’ da decoração, e em fevereiro, o ‘melhor’ da arquitetura nacional. Essas publicações, que se propõem a ser o crème de la crème do assunto, como tudo nas terras americanas do sul, se tornaram um extenso e caro rol de projetos risíveis com espaços comprados a preço de eletrodoméstico de inox. Pouca coisa se salva, e geralmente são os projetos dos convidados, que praticamente prestam um favor à revista em colocar seu trabalho lá.

Tudo isso para dizer que está rolando maior bafafá em torno do projeto publicado na ultima edição de fevereiro pelo grande arquiteto Marcio Kogan, que não teve dó em colocar seu projeto vencedor de menção honrosa em um concurso no ano passado: LePont Gucci. A proposta era que os concorrentes projetassem uma ponte de ligação entre o eminente Shopping Cidade Jardim e a Daslu, evitando uma pequena favela às margens do Rio Pinheiros. Claro que a história toda era uma gozação com o ‘setor de luxo’ que devora o urbanismo de São Paulo, e o aparecimento de um projeto desses numa revista como essa foi a mais saborosa cereja do bolo possível. Até a Vejinha entrou no bate-boca e colocou o arquiteto on the stand.

‘Uma sofisticada estrutura atirantada por bel?ssimas correntes gucc?ssimas de ouro 18k e largas tiras de tecido’ côtelé rouge et vert

Muito barulho por nada, porque os revoltadinhos da Grow com essa história são os mesmos que se pudessem não titubeariam em construir alguma das propostas. A nós mortais, e reles usuários de espaços públicos, resta nos divertir com esta e as outras propostas ‘guccíssimas’ apresentadas no concurso, e esperar o Dia do Índio para poder usufruir dessas regalias.

Cinema em casa

terça-feira, fevereiro 19th, 2008

O site The Cool Hunter acaba de nomear um forte candidato ao home theater mais cool da história. Trata-se da casa da arquiteto americano Hagy Belzberg, formado em Harvard e ex-estagiário do mestre da arquitetura-espetáculo Frank O. Gehry.

Skyline Residence, de Hagy Belzberg

Mais do que pela gigantesca tela de projeção ao lado de fora, o projeto chama atenção por oferecer uma proposta extremamente arrojada para um formato de uso do solo há tanto tempo enferrujado nos EUA e, infelizmente, no Brasil também. A mistura de uso residencial com o comercial, a integração do espaço privado com o semi-público, ainda por cima se fazendo valer de um serviço tão antigo como o drive-in, mostra que nenhuma idéia está morta e enterrada no passado. Prova apenas como a sociedade enjaulada e aterrorizada de hoje perde cada dia mais a chance de fazer valer a tese da grande Jane Jacobs de que uma cidade democrática e segura se constrói a partir do zeladorismo de sua própria população. A grama do vizinho só é mais verde se mantivermos o muro que separa a minha da dele.

Interior

Soma-se a isso uma arquitetura de qualidade, com fortas influências do tutor Gehry, além de Richard Meier, Phillip Johnson (ainda aqueeeeela Glass House), John Pawson, e por que não, algo até da arquitetura brasileira da primeira metade do século XX. Gostinho de Oswaldo Bratke…. ou será Lucio Costa? Só sei que Isay e Mattos Casas beberam dessa água.

Não posso afirmar que a Skyline Residence funcione realmente como descrita acima, pricipalmente se considerarmos que ela foi erguida em uma das muitas montanhas de mansões californianas, e todos bem sabemos que os americanos, mais ainda os do oeste, não são os mais chegados em dividir suas posses. Mas a arquitetura é admirável, e me traz aquela centelha de esperança que talvez com um pouco de desprendimento e uma boa dose de ousadia, a arquitetura ainda vire o jogo sobre a sociedade, e deixe de ser refém das contingências urbanas como é hoje.

Imaginem o que seria uma casa dessas em plena Avenida Paulista, por exemplo. A Tela Quente nunca mais seria a mesma.

post de rseefo