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Desabafando sobre o acidente da Air France

quarta-feira, junho 3rd, 2009

A última segunda-feira foi um dos dias mais loucos da minha vida. Depois de passar dias trabalhando por 16 horas diárias, eu finalmente me rendi às merecidas férias e no último domingo eu embarquei para Paris.

A viagem foi turbulenta, mas não chegou aos pés da turbulência que foi meu primeiro dia por aqui. O meu vôo, que saiu de São Paulo, estava previsto para decolar às 19h10, porém acabamos decolando com mais de meia-hora de atraso. Como eu falei no meu twitter, eu estava numa baita ressaca e a minha previsão de que iria “morrer” no avião não aconteceu. Quando escrevi aquilo, eu fiz um trocadilho de “dormir” para “morrer”.

Tomei duas garrafas pequenas de vinho no jantar, mas mesmo assim eu não dormi e o saldo foi que eu assisti 3 filmes inteiros durante o percurso até Paris. Durante essas 12 horas, tivemos algumas turbulências, sendo que uma delas foi mais forte e meu filme foi desligado, mas mesmo assim o susto foi pequeno, pois já peguei turbulências bem piores.

Tentei dormir várias vezes e não rolou. Cheguei no Charles de Gaulle me sentindo um zumbi. O nosso desembarque foi normal, só depois é que caiu minha ficha de que a tripulação foi meio “seca” na despedida e lembro de na hora ter reparado isso. Eu falei “au revoir” para o comandante e ele me respondeu “good morning”, o que me fez achá-lo bem disperso. Essa ficha caiu quando soube do acidente e atribuí à tensão que eles deveriam estar sentindo, pois já deveriam saber o que estava rolando.

Não desconfiei que houvesse algo errado no aeroporto. Tudo parecia normal. Comprei meu bilhete e fui para a estação Rochereau Defort encontrar um amigo. Logo que cheguei foi que o mundo começou a desabar. Ele mal me cumprimentou e informou que tinha uma péssima notícia. Como ele é bem brincalhão, eu não levei a sério até ele terminar a frase “o voo da Air France que vinha do Rio no mesmo horário que o seu, caiu e ainda não o encontraram”.

Eu me senti chocada com a notícia e logo pensei nos meus pais, que com certeza estariam em pânico por não terem certeza se meu voo tinha alguma escala no Rio antes de seguir para Paris. Tentei ligar e só ocupado.

Depois disso o restante é história. Muita gente acompanhou no twitter a “comoção” em cima da minha possível morte. Como no Brasil ainda eram 9h da manhã, não imaginei que tivesse algo rolando a respeito, mas ao acessar meu email, eu fiquei chocada por ter 2 páginas só com pessoas me adicionando no twitter. Em 2 dias eu tive um aumento de quase 700 followers, o que me leva à uma reflexão do que faz as pessoas saírem adicionando loucamente alguém que muitas pessoas estão dizendo que morreu.

Isso deixa claro o quanto o ser humano é mórbido e gosta de estar próximo a assuntos relacionados à tragédia. Na sequencia consegui falar com meu pai, que estava no meio de um pesadelo enquanto não tinha notícias, afinal as pessoas começaram a ligar para ele às 8h30 da manhã para saber se ele tinha notícias. Minha mãe levou um choque tão grande, que ficou de cama o dia todo e somente ontem é que começou a se reestabelecer. Na segunda ela não conseguiu falar ao telefone comigo.

Assim que eu postei que estava viva e bem, choveram mensagens e solicitações de entrevistas e quando eu vi, eu era notícia de um assunto que eu não tinha a ver com ele.

Confesso que eu chorei com tudo o que aconteceu e fiquei com a emoção à flor da pele. A sensação que tive é difícil explicar, mas é como se eu, de repente, fizesse parte de algo que eu não fiz. Foi como se eu estivesse realmente no voo que caiu e, por um milagre, acabei sobrevivendo. O acidente se tornou tão próximo, que hoje eu chorei ao passar na frente da Catedral de Notre-Dame, pois teria uma missa aos mortos na queda e tinham vários funcionários da Air France. Eu me senti tão próxima àquelas pessoas, como se eu fosse de fato parte daquilo. O que era algo distante tornou-se tão próximo. As pessoas me colocaram em algo que eu não estive.

Na segunda-feira eu passei muito mal no final do dia e ontem acabei me esgotando emocionalmente, tanto que fui dormir às 23h de ontem e hoje acordei ao meio-dia, sem sequer ter ouvido o barulho da britadeira que trabalhou insistentemente em frente à minha janela.

Concordo com o Cardoso sobre o que ele falou, as pessoas se apegaram as bobagens que eu falei no twitter antes de decolar para buscar algo impressionante, que não existia. Quando um jornalista me pediu para enviar uma foto minha no meu voo ou já em Paris, eu lembrei que tinha dormido com um protetor de claridade que ganhei da Chilli Beans em que está escrito “I see dead people”. Fiquei imaginando se as pessoas tivessem visto eu com esse protetor. Se eu falei que estava com azar, que morreria no avião e numa infeliz coincidência usei uma frase estampada nos meus olhos “I see dead people”, nada teve a ver com o que aconteceu. Não previ nada e nada teve de impressionante. Para mim o impressionante é um avião cair e matar mais de 200 pessoas. Quem não pensa na morte em algum momento quando faz uma viagem longa de avião? Eu pensei na morte sim quando passamos por uma das turbulência e mesmo antes de embarcar. Eu tenho medo de voar.

Fiquei imaginando várias coisas que seriam ditas caso eu estivesse no voo fatídico: depois de muito tempo eu consegui passar um tempo junto com meus pais; eu estou feliz demais porque meus negócios estão properando; estava pensando em casar; estava vindo para uma das minhas cidades favoritas para encontrar uma das minhas melhores amigas, que eu não via há bastante tempo; paguei todas as contas adiantadas; fiz um seguro de vida, algo que eu nunca pensei em fazer; eu completo 36 anos na próxima sexta-feira; embarquei num voo internacional em pleno domingo, algo que nunca fiz, etc. Diriam “nossa, ela sentiu que ia acontecer algo”.

Estamos sempre fazendo coisas, tentando acertar outras, dando rumos diferentes às nossas vidas e só porque uma desgraça acontece, tudo isso passa a fazer algum sentido?

Eu não ia escrever esse texto, mas ele é um desabafo de como a busca por fatos “impressionantes” e pelo sensacionalismo pode sugar nossas energias. Hoje eu estou bem, mas precisei chorar copiosamente na escadaria ao lado da Notre-Dame enquanto olhava os funcionários da Air France, a mídia ansiosa por mais notícias. Bateu uma tristeza sem fim e inexplicável. Talvez tenha sido também por alívio de na realidade ter estado longe de toda a tragédia e por ter me safado. Eu não estaria naquele voo, porque as chances de eu embarcar no Rio eram mínimas, mas de repente veio aquela sensação de que poderia ter sido meu voo e que eu poderia mesmo estar lá.

Agradeço pelo carinho de algumas pessoas que se preocuparam de verdade. Algumas próximas, algumas distantes, mas isso não fez eu me sentir mais especial. O que eu queria mesmo é que nada disso tivesse acontecido.