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O celular é antisocial?

quinta-feira, abril 16th, 2009

Li há um tempo atrás um ensaio na revista Época escrita pela Ruth de Aquino que ela discorre sobre a forma exagerada como nos relacionamos com nosso celular. Inclusive ela cita um romance do Philip Roth, Fantasma sai de cena, que depois de viver isolado nas montanhas por dez anos, ele chega a Nova York: “O que mais me surpreendeu foi a coisa mais óbvia – os telefones celulares. Na Manhattan de que eu me lembrava, as únicas pessoas que andavam pela Broadway aparentemente falando sozinhas eram os loucos. O que acontecera que agora havia tanto a dizer e com tanta urgência que não dava para esperar? (…) Alguma coisa que antes inibia as pessoas agora havia desaparecido, e por isso falar sem parar ao telefone se tornara preferível a caminhar pelas ruas sem estar sendo controlado por ninguém. (…) Para mim, isso tinha o efeito de fazer com que as ruas se tornassem cômicas, e as pessoas, ridículas. Havia também um lado trágico nisso. A anulação da experiência da separação. (…) Você sabe que pode ter acesso à outra pessoa a qualquer momento, e, se isso se torna impossível, você fica impaciente e zangado, como um deusinho idiota. (…) Tendo vivido parte da minha vida na era da cabine telefônica, cujas portas dobradiças podiam ser hermeticamente fechadas, impressionava-me aquela falta de privacidade. (…) Eu não conseguia compreender como alguém podia imaginar que levava uma vida humana falando ao telefone metade do tempo em que estava acordado”.

Quando li este texto na época, eu me vi bastante nele, pois eu passo boa parte do tempo olhando para o meu celular ou fazendo algo nele. Não necessariamente esperando ele tocar, porque não sou muito fã de falar ao telefone, mas para ver emails, twitter, meus feeds. Acabei refletindo e comecei a tentar deixa-lo um pouco mais de lado, pois notei muito facilmente o quanto alguém ao seu lado grudado no celular pode ser chato. Você está conversando com alguém que mal presta atenção nas suas palavras, pois está fazendo alguma coisa no celular. E não presta mesmo, por mais que diga o contrário.

Se você olhar a sua volta vai ver quantas pessoas estão no seu próprio mundinho mesmo ao lado de amigos. Acabo chegando a conclusão que o celular não conecta, mas disconecta. Torna o próximo em distante, o real em virtual. Nos transportamos para nossos pequenos aparelhos e nos trancamos como se ali fosse um meio seguro e muito mais interessante do que fora dele. Eu não sou muito diferente do perfil descrito, mas tive a sorte (ou azar, depende do ponto de vista) do meu smartphone dar pane e na pressa eu peguei um celular que a principal função é música, ou seja, pensar em utilizar a internet nele é algo quase impraticável. Percebi nestas duas semanas que estou com ele que tenho estado mais presente com as pessoas que estão comigo.

Não quero ir na contra-mão da tendência do celular, da publicidade que cada mais tem que pensar nele como um meio imprescindível, não quero voltar para trás, mas depois de uma boa auto-análise, eu quero me desconectar um pouco dele e curtir mais as pessoas que dividem minha atenção com ele. Deixar o celular para momentos mais solitários, quando ele me salva do tédio no trânsito, e urgentes.

Ontem meu namorado me enviou um vídeo de uma palestra dada pelo Renny Gleeson. Ele foi escolhido pelo Chris Anderson para dar uma palestra curta (3 minutos) durante o TED 2009. Ele fala sobre o perigo do celular e o quanto ele nos isola. E ele mostra isso de uma forma divertida, mas que faz muita gente se identificar.